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Vídeo mostra vítima desesperada antes de ser entregue a traficantes: ‘Não quero’

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Um vídeo feito por uma testemunha mostra parte da cena depois que Bruno Barros da Silva, 29 anos, e Ian Barros da Silva, 19 anos, foram levados para uma área do mercado Atakarejo de Amaralina acusados de furto. A cena mostra Ian gritando desesperado, dizendo repetidamente “eu não quero, eu não quero”. Ele é controlado por um homem que aparenta ser segurança do mercado. Outros funcionários observam. Tio e sobrinho foram entregues a traficantes da área do Nordeste e executados.

As imagens foram exibidas pela TV Bahia. Uma testemunha contou ao Jornal da Manhã que ouviu quando os dois foram detidos e agredidos no mercado, para em seguida serem entregues a um grupo armado. “Eu ouvi muitos gritos, tipo como se estivessem agredindo os dois rapazes. Muito, muito, muito mesmo! Eu ouvi zoada de chutes… A parte que eu vi foi dentro da loja, entendeu? Em seguida eu vi muitas pessoas armadas, umas dez a vinte pessoas armadas. E vi o portão abrindo e os dois rapazes pedindo por favor pra não deixar levarem eles, né? Pedindo desculpas, e mesmo assim pegaram e abriram o portão e ‘deixou’ o pessoal levar eles lá”, contou a pessoa não identificada.

Fotos dos dois ao lado das carnes que teriam sido roubadas, já contidos pelo seguranças e depois mortos circularam em grupos de mensagens e redes sociais. Antes, Bruno chegou a mandar mensagens para amigos pedindo ajuda para tentar levantar dinheiro para pagar aos seguranças e, assim, ser liberado com o sobrinho.

Ontem, a polícia prendeu sete suspeitos de envolvimento no crime, três trabalhadores da área da segurança do mercado, incluindo o gerente do setor, e quatro traficantes do Nordeste. Também foram apreendidos mais materiais no mercado para dar continuidade à investigação. O policiamento no bairro foi reforçado após a operação policial.

A delegada Andréa Ribeiro, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) afirmou que não há mais dúvidas de que tio e sobrinho foram entregues para traficantes. Também confirmou que um dos seguranças entrou em contato com amigos dos dois para cobrar R$ 700 para liberar os dois – o valor seria o necessário para pagar as carnes furtadas.

A polícia diz que a investigação continua também para descobrir exatamente o que cada suspeito fez e se há outros envolvidos. A apuração também vai apontar se havia um direcionamento institucional por parte da direção do Atakarejo para esse tipo de atitude criminosa – até agora, os indícios mostram que havia um padrão por parte do grupo de seguranças, com o surgimento de um novo caso suspeito de mulheres que teriam furtado no mercado sendo entregues a traficantes, no ano passado.

Os nomes dos presos não foram divulgados. Em nota, a assessoria do Atakarejo diz que a empresa condena a violência e tem colaborado com as investigações da polícia desde o início. Além disso, afastou os funcionários envolvidos e apura também o caso em sindicância. Leia o texto enviado à imprensa:

“O Atakarejo vem a público informar que:

1/Desde o início vem colaborando com as autoridades que investigam os crimes em questão;
2/Instalou sindicância que decidiu pelo afastamento de funcionários até que a investigação policial seja concluído;
3/Deseja que todos os fatos sejam esclarecidos o mais rapidamente possível;
4/Quanto às imagens veiculadas, reitera seu posicionamento de repúdio a qualquer tipo de violência, devendo as imagens serem devidamente analisadas pelas autoridades competentes;
5/ A empresa mantém firmemente o compromisso com seu Código de Ética e Conduta.

Ao longo dos seus 26 anos de atuação no mercado baiano – onde gera 6.300 empregos diretos – o Atakarejo tem sua atuação marcada pelo respeito à todas as pessoas, aos Direitos Humanos e sempre agiu com muita responsabilidade social e seriedade”.

Veja mais detalhes do que foi dito pela polícia ontem, após a operação que prendeu sete suspeitos:

 

Polícia não foi chamada e o problema da justiça paralela
O secretário da Segurança Pública, Ricardo César Mandarino, afirmou que a polícia não aceitará comportamentos que envolvam um poder paralelo em questões de Estado. “Não vamos tolerar esse tipo de crime bárbaro. Seguranças, ao invés de chamar a polícia para resolver o problema, que é o comportamento correto, adequado, a polícia é treinada para isso, eles chamaram os traficantes, chamaram o poder paralelo. Existe essa mentalidade de ‘bandido bom é bandido morto’ e os rapazes nem bandidos eram. Então eles se acham no direito de julgar e executar numa rapidez incrível. É uma mentalidade horrível que se instalou no país”, avaliou.

Para ele, a polícia baiana não é violenta e mortes em ação acontecem em situações de confronto, quando é necessário se defender. “E nós não vamos admitir aqui na Bahia que o poder paralelo, que os marginais, mandem no estado. Quem controla a segurança pública é a polícia, que é órgão do estado. A polícia baiana não é violenta, não vai matar ninguém, porque não pode, não deve, é questão de princípio, não só porque está no Código Penal que matar é crime. Isso é filosofia nossa, preservar vidas. Acontecem mortes quando há confrontos? Acontecem. Vão continuar acontecendo? Pode acontecer. Se o bandido reage com arma, o policial está em situação de legítima defesa”.

 

A delegada Andréa também destacou que em nenhum momento o Atakarejo chamou a polícia para cuidar do caso de furto cometido por tio e sobrinho. “Em nenhum momento os seguranças do Atakarejo chamaram a polícia. Não há registros na Polícia Civil e nem na Polícia Militar, elas não foram chamadas para atender essa ocorrência de furto. Eles disseram que fizeram uma ocorrência administrativa”, diz. “Eles estão dizendo que fizeram uma ocorrência interna, mas eles não têm poder de polícia. Eles podem fazer ocorrência interna para responsabilizar empregados deles que tenham saído da linha de orientação que a empresa estabelece, mas a ocorrência interna não pode tomar providência de polícia. Eles têm o dever de comunicar a polícia”, complementou o secretário.

Operação Retomada prendeu sete suspeitos e apreendeu material
A delegada-geral da Polícia Civil, Heloísa Campos Brito, diz que o crime chocou todo país pelo “grau de perversidade” com as vítimas. Ela disse que o trabalho da Operação Retomada foi feito de maneira minuciosa para reunir as provas e conseguir as autorizações para mandados de busca e prisão na Justiça. Vários departamentos da Polícia Civil e a Polícia Militar participaram da operação hoje. “Essa é só a primeira etapa. Vamos intensificar as investigações com oitiva de todos os envolvidos, para que a gente possa consolidar de que modo aconteceu e qual a responsabilidade de cada indivíduo nesse processo”, disse. “É importante estarmos atentos também à participação do próprio estabelecimento comercial através da sua segurança (…) Entendemos que é latente a responsabilidade da empresa nesse contexto”.

“Vamos nos debruçar sobre esse material (apreendido), fazer novas análises e possivelmente isso vai nos permitir identificar outros indivíduos que participaram e concluir inquérito com indiciamento de todos envolvidos, sejam eles seguranças ou traficantes. Desde o início isso também incomodou muito nossa equipe, esse tribunal de exceção que foi estabelecido no complexo do Nordeste, precisávamos dar essa resposta”, diz a delegada Andréa.

Relação do Atakarejo com traficantes

 

Os policiais destacaram que a rede Atakarejo pode ser responsabilizada pelo crime, mas ainda não há provas de que havia um direcionamento vindo do mercado para a entrega dos suspeitos ao tráfico. “O que temos até então é relação dos seguranças que teriam arrebatado as vítimas do supermercado”, dise a delegada Andréa. “Não posso dizer com certeza se existe uma determinação direta do Atakarejo com esses seguranças, no sentido disso ser um direcionamento da rede. Mas a investigação está cumprindo a primeira etapa, com vários desdobramentos que seguirão”, afirmou. “Se essa conexão ficar provada, buscaremos responsabilizar tais indivíduos”. O Atakarejo entregou as imagens das câmeras que permitiram identificar os seguranças que participaram da ação.

Andréa destacou, contudo, que há um padrão de comportamento de violência dos seguranças com os traficantes da região, com pelo menos outro caso similar. “Só que no decorrer da investigação, à medida que fomos trazendo aos autos outros depoimentos e testemunhas, inclusive há outra vítima que teria sofrido violência física no ano passado em circunstâncias muito parecidas, a gente começa a delinear algo que foi determinante para que pedíssemos a prisão de seguranças. A gente começou a perceber que a ação era algo padrão com aquele grupo de seguranças que tiveram atuação direta no caso que culminou com o duplo homicídio”, explicou. “Se a gente conseguir trazer aos autos outros elementos que nos permitam imputar essa responsabilidade também à rede de supermercados, isso será feito”, acrescentou, em outro momento.

Os seguranças caíram em contradição diante das imagens colhidas e a polícia diz que eles mentiram em depoimento. “A gente não consegue trazer ainda outras informações que nos permitam dizer qual foi horário exato, mas isso será feito a partir da análise de inteligência, mas o fato é que temos que isso aí ficou claro pra gente, no curso da investigação, que houve esse contato do grupo de seguranças com traficantes da área”, afirma a delegada Andréa.

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