Até que ponto a sociedade está disposta a aceitar quem é diferente? E quem define o que é considerado normal? Essas são algumas das provocações que conduzem “Terra de Sal”, espetáculo solo do Grupo Fome que estreia no dia 23 de novembro, às 20h, no Teatro Américo Alvarez, em Manaus. Com uma atmosfera inspirada no universo dos antigos circos de horrores, a montagem utiliza o grotesco, o absurdo e o horror para denunciar o preconceito e a exclusão de pessoas com deficiência e neurodivergentes.
Com atuação e dramaturgia de Sahel Oliveira e direção artística de Henrique Campelo, o espetáculo apresenta um circo decadente, comandado por um empresário tirânico que transforma corpos, diferenças e histórias humanas em atrações. Por trás dessa representação perturbadora, a obra propõe uma reflexão sobre a discriminação, a invisibilidade e a falta de oportunidades enfrentadas por pessoas que não se enquadram nos padrões impostos pela sociedade.
Mais do que defender a inclusão, “Terra de Sal” questiona por que ela ainda precisa ser reivindicada e expõe as contradições de uma sociedade que insiste em estabelecer quem merece ocupar espaços de destaque.
“O solo é uma crítica. Não é uma questão de simplesmente dizer ‘vamos incluir’, mas de criticar a falta de inclusão e questionar as pessoas que se acham normais e perfeitas. Todos podem ter parentes ou amigos neurodivergentes ou com deficiência. Você também pode desenvolver um transtorno, ter alguma deficiência ou sofrer um acidente. O trabalho é principalmente para esse público, para fazer as pessoas refletirem sobre isso”, explica Sahel Oliveira.
Da pesquisa acadêmica à provocação artística
A origem de “Terra de Sal” está em uma pesquisa acadêmica desenvolvida por Sahel Oliveira e Henrique Campelo. Há quatro anos, Sahel investiga a ausência de pessoas com deficiência e neurodivergentes em posições de protagonismo no cenário artístico, relacionando essa realidade à própria trajetória profissional.
‘Terra de Sal’ começou em uma pesquisa da faculdade, a partir de um questionamento sobre a falta de inclusão de pessoas com deficiência e neurodivergentes no teatro e na arte de forma geral. Existe uma escassez muito grande de obras e de artistas que estão nos holofotes. Eu, como uma pessoa neurodivergente, sei que é muito difícil ser artista, ainda mais um artista com autismo. Queria fazer uma crítica a essa realidade e foi a partir disso que comecei a desenvolver o trabalho”, conta o artista.
A pesquisa também mergulha na história dos chamados circos de horrores e dos espetáculos de exibição humana, nos quais pessoas com deficiência e indivíduos com características consideradas incomuns eram expostos como atrações. Entre as referências está Phineas Taylor Barnum, empresário norte-americano historicamente associado à exploração comercial desse tipo de espetáculo.
Na construção estética e dramatúrgica, a montagem incorpora ainda influências do Movimento Pânico, associado aos artistas Fernando Arrabal, Alejandro Jodorowsky e Roland Topor, e do teatro de horror Grand-Guignol, representado pelo dramaturgo francês André de Lorde.
Essas referências ajudam a construir uma experiência cênica marcada pelo exagero, pelo grotesco, pelo absurdo e pela provocação. A figura do empresário circense ganha destaque como representação de uma sociedade que transforma a diferença e até o sofrimento humano em mercadoria, questionando os limites entre entretenimento, exploração e exclusão.
Acessibilidade também ocupa o centro da cena
A discussão proposta pelo espetáculo se estende à própria experiência do público. A produção conta com consultoria de acessibilidade, audiodescrição, mediação de acessibilidade e interpretação em Libras, buscando ampliar as condições de participação e acesso de diferentes públicos à obra.
O Grupo Fome é um coletivo artístico de Manaus que desenvolve produções culturais e atividades formativas, com o objetivo de ocupar novos espaços, promover encontros e democratizar o acesso à arte e à cultura.
Além da estreia, “Terra de Sal” terá uma segunda apresentação no dia 28 de novembro, às 20h, na Casa Teatro Taua-Caá, localizada na Rua Santa Eliana, nº 19, bairro Santa Etelvina, zona norte de Manaus.
O projeto é realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB Amazonas 2026), por meio do Edital de Multilinguagens. O financiamento é do Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura, com execução do Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa.
Equipe de criação e produção
“Terra de Sal” tem direção artística, produção executiva e cenografia de Henrique Campelo, com consultoria artística de Wellington Dias. A criação e a consultoria de iluminação são assinadas por Anna Ângelo, Lannah Braga e Taís Vieira. O figurino é de Dione Maciel, a maquiagem de Mayara Cabral, os adereços de Auzamira dos Santos e a trilha sonora de João Amorim.
A equipe também conta com Árlisson Cruz na assistência administrativo-financeira, Jorge Bandeira na facilitação das atividades formativas, Ísis de Manaus e Abraão Leão na mediação cultural, além de Ivana Andrade, Gutto e Suellen Campos na assistência de produção. A identidade visual é assinada por Isadora Lêda e Erick Lêda, com assessoria de imprensa de Manuella Barros.
A consultoria de acessibilidade é de Gorete Lima, a audiodescrição de Maria Fernanda Carmim, a mediação de acessibilidade de Lay Souza e a interpretação em Libras de Ainã Palheta. O relatório técnico é de Ananda Guimarães.
SERVIÇO
O quê: Estreia do espetáculo solo “Terra de Sal”, do Grupo Fome.
Quando: 23 de novembro de 2026, às 20h.
Onde: Teatro Américo Alvarez, Avenida Ramos Ferreira, nº 1572, Centro, Manaus.
Entrada: Gratuita.
Classificação indicativa: 16 anos.
Segunda apresentação: 28 de novembro de 2026, às 20h, na Casa Teatro Taua-Caá, Rua Santa Eliana, nº 19, bairro Santa Etelvina, zona norte de Manaus.














