Manaus mudou muito ao longo dos últimos 150 anos. Igarapés foram aterrados, pontes deram lugar a avenidas, os bondes desapareceram e serviços que faziam parte do cotidiano foram substituídos pela modernização da cidade.
Junto com essas transformações, também desapareceram das ruas diversos trabalhadores que eram personagens conhecidos dos manauaras.
Aguadeiros, lavadeiras, catraieiros e condutores de bondes estão entre as profissões antigas de Manaus que ajudam a entender como funcionava a capital amazonense antes da expansão da água encanada, dos automóveis e da infraestrutura urbana atual.
Conheça cinco desses trabalhos que marcaram a história de Manaus.
1. Aguadeiro
Imagine viver em Manaus sem abrir uma torneira para conseguir água. Durante o século XIX, essa era uma realidade para boa parte da população.
Foi nesse contexto que os aguadeiros se tornaram personagens importantes da cidade. Eles buscavam água em fontes, cacimbas e igarapés e transportavam o líquido para residências, estabelecimentos e repartições.
Em 1865, a viajante Elizabeth Cary Agassiz registrou uma das descrições mais interessantes da profissão. Segundo seu relato, indígenas e negros podiam ser vistos de manhã e à tarde carregando grandes potes de barro vermelho cheios de água. A movimentação era tão grande que ela comparou a cena a uma espécie de procissão.
Com o tempo, o transporte também passou a ser realizado com carroças e barris.
A importância desses trabalhadores foi tão grande que o historiador amazonense Mário Ypiranga Monteiro publicou, em 1947, o livro O Aguadeiro, dedicado à história da atividade no Amazonas.
E a profissão sobreviveu por mais tempo do que muita gente imagina.
Um dos casos documentados é o de Manoel Cândido, aguadeiro que trabalhava no bairro São Raimundo. Ele transportava água em um camburão colocado sobre uma pequena estrutura de três rodas, empurrada manualmente.
Manoel continuou trabalhando até 1957, quando a expansão da canalização de água no bairro tornou seu serviço desnecessário.

2. Lavadeiras dos igarapés
Antes das máquinas de lavar e das lavanderias modernas, lavar roupa podia significar caminhar até um igarapé carregando trouxas inteiras.
As lavadeiras de Manaus fizeram parte da paisagem da cidade por muitas décadas.
Os igarapés não serviam somente para transporte ou lazer. Eram espaços de trabalho, convivência e sobrevivência. Registros históricos mostram pescadores, banhistas, aguadeiros e lavadeiras dividindo esses ambientes ainda no século XIX.
As mulheres lavavam roupas de suas próprias famílias e também recebiam pagamento para cuidar das peças de outras pessoas.
A atividade permaneceu viva durante boa parte do século XX. Em abril de 1970, por exemplo, o jornal Diário da Tarde publicou uma reportagem sobre as lavadeiras do Igarapé do 40, mostrando que o local era simultaneamente espaço de trabalho e lazer.
A canalização dos igarapés, a expansão urbana, o abastecimento residencial de água e a popularização dos eletrodomésticos mudaram completamente essa realidade.

3. Catraieiro
Houve uma época em que atravessar determinados pontos de Manaus significava entrar em uma pequena embarcação e confiar nos braços de um catraieiro.
As catraias tiveram enorme importância na cidade.
Antes da conclusão do cais flutuante do Porto de Manaus, em 1906, elas ajudavam a transportar cargas e pessoas entre o cais e grandes navios fundeados no Rio Negro.
Depois da modernização portuária, os catraieiros continuaram trabalhando, principalmente realizando travessias nos igarapés que cortavam Manaus.
No São Raimundo, por exemplo, as embarcações levavam diariamente pessoas que precisavam trabalhar, estudar ou chegar ao Centro.
E existe uma curiosidade histórica ainda maior: os catraieiros protagonizaram aquela que é apontada como a primeira greve conhecida de Manaus.
Em 1884, em meio ao movimento abolicionista, trabalhadores da categoria se recusaram a transportar pessoas escravizadas ou auxiliar no embarque e desembarque delas nos navios.
Com pontes, ruas e novas formas de transporte, as antigas travessias urbanas perderam espaço.

4. Condutor de bonde
Manaus também já teve trabalhadores responsáveis por transportar diariamente milhares de passageiros sobre trilhos.
Os bondes elétricos começaram a circular na capital amazonense no final do século XIX e se transformaram em um dos símbolos da modernização urbana durante o Ciclo da Borracha.
Mas por trás das máquinas estavam profissionais como motoristas e condutores de bondes.
Os motoristas controlavam os veículos, enquanto os condutores lidavam diretamente com os passageiros e com a operação cotidiana do transporte.
Pesquisas sobre o trabalho urbano em Manaus mostram que esses profissionais formaram uma categoria importante entre o final do século XIX e as primeiras décadas do XX.
Fotografias de aproximadamente 1909 mostram bondes elétricos circulando pela Avenida Eduardo Ribeiro, dividindo as ruas com pedestres e veículos de tração animal.
O desaparecimento definitivo dos bondes de Manaus também levou embora essas profissões.

5. Carroceiro
Muito antes dos caminhões dominarem o transporte de mercadorias, uma parte importante das cargas de Manaus circulava em carroças puxadas por animais.
Os carroceiros transportavam produtos entre o porto, armazéns, mercados, estabelecimentos comerciais e diferentes pontos da cidade.
Fotografias antigas ajudam a dimensionar essa presença. Imagens da Manaus do início do século XX registram carroças circulando em áreas comerciais e dividindo espaço até mesmo com os modernos bondes elétricos.
Os carroceiros também estavam ligados ao universo de trabalhadores do porto. Registros históricos mencionam, inclusive, a existência da Associação Beneficente dos Estivadores e Carroceiros do Amazonas.
Com a expansão dos veículos motorizados, o transporte de cargas por tração animal foi progressivamente substituído.
Hoje, olhar para essas profissões é também olhar para uma Manaus muito diferente daquela que conhecemos.
A cidade dos aguadeiros, lavadeiras, catraieiros, carroceiros e trabalhadores dos bondes sobrevive principalmente nas fotografias, documentos e relatos históricos.
E você: qual outra profissão antiga de Manaus deveria entrar nessa lista?




















