Memórias do Amazonas
O Obelisco esquecido de Manaus: O Monumento que ficava no Largo de São Sebastião
Se você já caminhou pelo Largo de São Sebastião, em Manaus, certamente parou para admirar o imponente Monumento à Abertura dos Portos. O que poucos sabem é que essa não é a primeira obra a ocupar o local. Antes dele, existiu um simples obelisco, erguido em 1867 para celebrar a abertura dos portos brasileiros ao livre comércio com nações amigas.
A história começa em 1866, ainda durante o Segundo Reinado. Com a navegação dos rios amazônicos liberada para embarcações estrangeiras, a cidade ganhou seu primeiro monumento comemorativo: um obelisco modesto, visível em fotografias antigas ao lado do Teatro Amazonas ainda em construção. Era uma peça discreta, mas carregada de significado para uma Manaus que começava a sonhar com grandeza.
Tudo mudou com o auge do ciclo da borracha. A riqueza que chegava à capital amazonense exigia símbolos mais grandiosos. Em 1899, o obelisco foi substituído por uma obra muito mais elaborada, inaugurada no mesmo local. O novo monumento, que conhecemos hoje, foi projetado pelo artista italiano Domenico de Angelis — o mesmo responsável pela decoração do Salão Nobre do Teatro Amazonas — e executado pelo escultor Enrico Quatrini. Feito em bronze sobre pedestal de granito rosa lavrado, o conjunto escultórico impressiona pela riqueza de detalhes: âncoras, cabeças alegóricas, serpentes e brasões que dialogam com o barroco. A influência do maneirismo também está presente na multiperspectividade da obra, que convida o observador a circular ao seu redor para apreciar todas as faces da composição.
O Largo de São Sebastião não se resumiu apenas ao monumento. A praça recebeu melhorias significativas ao longo das décadas. Entre 1914 e 1915, na gestão do prefeito Dorval Porto, foram plantadas mudas de Fícus-benjamin ao redor do espaço. Em 1920, o superintendente Franco de Sá mandou instalar dezesseis bancos de madeira com estrutura de ferro, posteriormente substituídos por modelos de concreto.
Outro elemento marcante é o calçamento português (ou mosaico português), feito com pedras de calcita branca e basalto negro. Embora alguns autores locais afirmem que o desenho representa o encontro das águas dos rios Negro e Solimões, a verdade é mais simples e fiel à história: trata-se de uma cópia direta do padrão existente na Praça de D. Pedro IV, o famoso Rossio, em Lisboa. Essa técnica, utilizada pela primeira vez em 1842 na capital portuguesa, chegou a Manaus como símbolo de sofisticação europeia.
O obelisco original permaneceu no local até 1889, quando foi demolido para dar lugar ao monumento atual.
Hoje, o Largo de São Sebastião continua sendo um dos cartões-postais mais queridos de Manaus. O monumento, com sua história de substituições e grandezas, carrega não apenas a memória da Belle Époque amazônica, mas também o espírito de uma cidade que, mesmo em meio às transformações, soube preservar seu legado cultural.
Passear por lá é, antes de tudo, viajar no tempo através da borracha, da arte italiana e das pedras que ecoam Lisboa em pleno coração da Amazônia.











