Polícia
Caso Marta Isabelle: Irmã denunciou agressões e entregou provas à polícia
O caso da adolescente Marta Isabelle dos Santos, de 16 anos, encontrada morta dentro de casa em Porto Velho, Rondônia, continua revelando novos detalhes que aumentam a revolta e a comoção em todo o país.
A jovem foi localizada sem vida, desnutrida, com ferimentos graves, fraturas expostas e sinais de maus-tratos, em uma situação descrita por investigadores como degradante e desumana.
Agora, relatos de familiares indicam que as agressões contra a adolescente teriam sido denunciadas às autoridades meses antes da morte, acompanhadas de fotos, vídeos e áudios que mostrariam a violência sofrida pela jovem dentro da própria casa.
Irmã afirma que denunciou agressões à polícia
De acordo com Kéfany Vitória, que é filha da pastora e irmã de Marta Isabelle, os maus-tratos teriam começado quando a adolescente tinha cerca de 14 anos, aproximadamente dois anos antes da morte.
Segundo ela, ao perceber as agressões, procurou a polícia e formalizou denúncia. “Eu não aguentava mais ver aquela situação. Ela estava sofrendo muito”, relatou.
Quefani afirma que, junto com sua então companheira, Elisangela Macario, reuniu provas para apresentar às autoridades. Entre os materiais entregues estariam vídeos, fotos e áudios registrados de Marta Isabelle afirmando que estava sendo agredida e pedindo ajuda.

A irmã de Marta Isabelle,Kéfany Vitória, tentou salvá-la- Imagem: Reprodução
Vídeos e áudios mostrariam pedidos de socorro
A ex-companheira de Quefani, relatou que chegou a presenciar as agressões e registrou parte delas. Segundo ela, os vídeos mostrariam momentos em que o pai da adolescente utilizava fios elétricos para agredi-la.
“Eu tinha vídeo, áudio dela pedindo socorro, dela se identificando e dizendo que precisava de ajuda. Tinha vídeo dela sendo espancada”, afirmou.
Ela também relatou que, em algumas ocasiões, ela e a irmã da vítima ajudavam a adolescente dando escondido, comida, medicamentos e biscoitos, já que Marta Isabelle passava longos períodos sem alimentação adequada. “Se eles vissem ela comendo, ela apanhava”, contou.
Adolescente teria sido coagida a negar agressões
Após a denúncia, segundo os relatos, foi aberta uma investigação e os suspeitos chegaram a ser chamados para prestar depoimento. Marta Isabelle também teria sido encaminhada para atendimento psicológico.
No entanto, de acordo com testemunhas, a adolescente teria sido ameaçada pela madrasta para negar as agressões durante o atendimento, o que teria enfraquecido o andamento da investigação.
“Ela negou porque estava sendo ameaçada”, afirmou a testemunha.
Medida protetiva afastou a irmã de Marta Isabelle
Após a denúncia, o pai e a madrasta teriam conseguido uma medida protetiva contra Quefani e sua ex-companheira, impedindo que elas se aproximassem da adolescente.
De acordo com o relato de Quefani, a medida protetiva impedia qualquer tentativa de aproximação da vítima com a irmã. Com a decisão, as duas ficaram proibidas de manter contato ou de se aproximar de Marta Isabelle. Quefani afirma ainda que ficou 11 meses sem qualquer contato com a irmã por causa da medida.
Depois desse período, ela ainda teria tentado retomar a aproximação, mas diz que continuava impedida de falar com Marta. Ainda segundo a irmã, a adolescente já estava há quase dois anos sem celular, sem comunicação com familiares, sem contato com parentes e sem qualquer rede de apoio.
Polícia diz que morte não foi fato isolado, mas resultado de sofrimento prolongado
Durante coletiva de imprensa, a delegada da Polícia Civil de Rondônia, Leisaloma Carvalho, afirmou que a morte de Marta Isabelle não foi causada por um único ato de violência, mas por uma sequência contínua de abusos e castigos.
De acordo com a autoridade policial, a adolescente foi submetida a tortura prolongada, sofrimento físico, sofrimento psicológico e negligência extrema dentro da casa que deveria ser o lugar de proteção e cuidado.
“A causa da morte dela não foi um ato isolado. Foi uma sucessão de tortura, castigo e prolongado sofrimento físico e psicológico”, afirmou a delegada.
A investigação aponta que os suspeitos de agredir Marta eram justamente as pessoas que tinham a obrigação legal de zelar pela integridade da adolescente.
Mãe relatou que recebia informações falsas sobre a filha
A mãe de Marta Isabelle também foi localizada e ouvida pela Polícia Civil. Segundo a delegada, a mãe de Marta Isabelle mora no Rio Grande do Norte, na divisa com a Paraíba, e relatou que mantinha contato com a filha por videochamadas realizadas pelo telefone da madrasta.
Ainda conforme a investigação, quando questionava sobre a adolescente, a mãe recebia explicações que agora são tratadas como falsas. Segundo o depoimento, a madrasta dizia que Marta estava em retiro espiritual, na escola ou vivendo normalmente. Em uma das situações, chegou a afirmar que a jovem havia passado de ano, mesmo quando, segundo a polícia, ela já nem frequentava mais a escola.
Para os investigadores, essas informações falsas mostram que pai e madrasta tinham plena consciência do que ocorria dentro da residência e agiam de forma deliberada para esconder a realidade.
Adolescente dormia no chão e recebia restos de comida, diz investigação
As apurações da Polícia Civil revelam um contexto de maus-tratos contínuos. Segundo a delegada, Marta Isabelle era obrigada a dormir no chão, sem cobertor e recebia restos de comida, em condições sub-humanas.
Há também relatos de que o cabelo da adolescente era cortado bem curto, em uma prática apontada por testemunhas como forma de humilhação e controle.
A polícia informou ainda que o inquérito reúne elementos que mostram que a jovem foi submetida, por longo período, a violência física intensa, castigos recorrentes e isolamento severo.
Feridas com larvas e tentativa de destruição de vestígios
Quando o corpo de Marta Isabelle foi encontrado, o cenário era de completo abandono. Segundo a delegada, a adolescente estava em um ambiente insalubre, com feridas abertas, presença de larvas e lesões antigas e recentes.
A investigação aponta também que houve tentativa de eliminação de vestígios do crime, com a queima de roupas e fraldas no local.
Foi justamente por esse contexto, somado aos indícios encontrados na residência, que pai e madrasta foram presos em flagrante.
Avó paterna também foi presa por omissão, diz polícia
Além do pai e da madrasta, a avó paterna da adolescente também foi presa. De acordo com a Polícia Civil, as investigações indicam que ela sabia das agressões sofridas por Marta Isabelle e tinha dever legal de agir para impedir que a violência continuasse, mas não o fez.
Segundo a polícia, o inquérito já conta com testemunhas ouvidas, provas técnicas, relatórios de investigação e um conjunto probatório robusto, que vem sendo reforçado com informações solicitadas a órgãos como Conselho Tutelar, Secretaria de Educação e outras instituições ligadas ao caso.
Lesões antigas, imobilização contínua e infecções generalizadas
Embora o laudo definitivo ainda esteja em elaboração, a Polícia Civil adiantou que os exames já apontam uma situação extremamente grave. Segundo a delegada, Marta Isabelle apresentava muitas lesões antigas, além de ferimentos compatíveis com imobilização contínua e prolongada. As feridas, ainda segundo a apuração, não receberam tratamento adequado, o que provocou infecções generalizadas no corpo.
A adolescente também não teria recebido atendimento médico básico. “Ela não teve sequer chance de ser salva ou de receber atendimento médico. O mínimo ela não teve”, destacou a autoridade policial.
Conselho de Ministros Evangélicos repudia o caso
Em nota de esclarecimento divulgada após a repercussão do caso, o Conselho de Ministros Evangélicos de Porto Velho (COMEP) informou que repudia veementemente o crime e destacou que as práticas investigadas não têm qualquer respaldo bíblico e não representam a conduta cristã, especialmente a de um pastor.
O conselho também afirmou que o casal investigado não integra o COMEP e não possui vínculo com instituições religiosas reconhecidas pela entidade.
Além disso, o COMEP declarou confiança na atuação da Justiça e manifestou solidariedade aos familiares e às pessoas afetadas pela tragédia.
Caso segue sendo investigado
A Polícia Civil segue aprofundando as investigações para esclarecer toda a dinâmica da morte de Marta Isabelle, incluindo o histórico de denúncias, a possível omissão de pessoas próximas e a atuação de instituições que poderiam ter tido contato com o caso anteriormente.
A morte da adolescente gerou comoção e revolta. Para familiares, testemunhas e boa parte da população, a principal cobrança agora é que o caso não caia no esquecimento e que todos os responsáveis sejam punidos com rigor.
MP-RO recebe inquérito sobre caso Marta Isabelle
O Ministério Público de Rondônia (MP-RO) recebeu, na manhã da última quinta-feira (5/3), o inquérito da Polícia Civil sobre a morte da adolescente Marta Isabelle, de 16 anos, encontrada em condições degradantes dentro da casa onde vivia com o pai e a madrasta, em Porto Velho, Rondônia. O Ministério Público de Rondônia vai analisar o inquérito e decidir se vai oferecer denúncia contra o pai: Callebe José da Silva, a madrasta: Ivanice Farias de Souza e avó de Marta: Benedita Maria da Silva.









