Conheça a famosa Ilha de Marapatá, a ilha encantada dos mitos.

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Marapat√° √© uma ilha na foz do rio Negro, pr√≥ximo ao cart√£o postal de Manaus do Encontro das √Āguas. Marapat√° durante muitos anos era a √ļnica porta de entrada da cidade de Manaus, claro, isso antes da exist√™ncia de estradas e avi√Ķes. Desde os tempos coloniais, foi sempre parada obrigat√≥ria dos barcos. Reza a lenda que o forasteiro deixava l√° sua vergonha, o que lhe permitia entrar na cidade sem qualquer freio moral. E a√≠ valia tudo. Ap√≥s fazer fortuna por meios il√≠citos, ia embora do Amazonas. O barco dava outra paradinha para que, j√° rico, recolhesse a honra ali deixada e recuperasse a dec√™ncia e a honestidade.

Desta sobre a Ilha Marapat√° no Jornal Folclore
Desta sobre a Ilha Marapat√° no Jornal Folclore

Quem sobe o rio Negro, na demanda de Manaus, √† margem esquerda, logo acima do Encontro das √Āguas, tem a oportunidade de observar a ilha do Marapat√°, separada da terra firme por um profundo e estreito canal. Na sua parte voltada para o leito principal, √© flanqueada por um verdadeiro abismo, onde o sonar assinalou uma fossa de mais de cem metros de profundidade, indicando uma altitude negativa de dezenas de metros abaixo do n√≠vel do mar.

√Č uma caracter√≠stica ilha de v√°rzea de rio de √°gua negra, indo ao fundo todos os anos, durante a enchente, nela desenvolvendo-se uma floresta de igap√≥, de cor verde azulada, id√™ntica a de outras ilhas do mesmo tipo, existentes no rio Negro, como a dos Cachorros, a do Camale√£o, e as incont√°veis Anavilhanas, na ba√≠a do Boia√ßu, mas diferente do verde claro da mata de igap√≥ das ilhas dos rios de √°gua barrenta.

Em todas as minhas passagens por ela, sempre ao largo, tenho recolhido interessantes relatos, contados pelos caboclos, sobre a aura mágica que a envolve. Uns citam as suas constantes mudanças de lugar. Outros informam, ali, existir um lago onde mora a velha Cobra Grande, que desde os tempos coloniais vagueia diante do Lugar da Barra, do Tarumã às Lages. Todos concordam ser ela um acidente geográfico encantado.

Ilha do Marapatá / Reprodução Google Earth
Ilha do Marapatá / Reprodução Google Earth

No tempo em que o transporte fluvial era o √ļnico ligando Manaus ao resto do Mundo, gaiolas, vaticanos, transatl√Ęnticos, chatas, chatinhas, lanchas, escunas, saveiros, alvarengas, batel√Ķes, canoas, todas as embarca√ß√Ķes trazendo passageiros para a cidade, passavam por esta estranha ilha do Marapat√°, o que ocorre at√© hoje, pois, apesar da lenda, ela continua firme, no mesmo lugar. Nessa passagem obrigat√≥ria, marinheiros, retirantes, seringueiros, seringalistas, comerciantes, funcion√°rios destacados para a regi√£o, governantes provinciais, militares, artistas, m√©dicos, advogados, gerentes, professores, emigrantes e imigrantes, todos ou quase todos, com honros√≠ssimas exce√ß√Ķes, ali deixavam, dizem os antigos, as suas consci√™ncias, ou as suas vergonhas, ou ambas, escondidas numa loca de ariramba, num buraco de piranheira, debaixo de uma sapopemba ou penduradas num galho qualquer de √°rvore. At√© Macuna√≠ma ali esteve antes de se tornar o her√≥i do Modernismo Brasileiro.

Livres delas chegavam a Manaus e a√≠…, o seringalista perdia o seu solit√°rio, o seringueiro gastava o seu saldo de anos, de trabalho na selva, os funcion√°rios, os governantes e as demais autoridades esqueciam os seus deveres, em suma, todos, sem consci√™ncia e sem vergonha, desmandavam-se em desatinos nesta cidade de Nossa Senhora da Concei√ß√£o.

Livro : A ilha do Marapat√° por Ant√īnio Loureiro
Livro : A ilha do Marapat√° por Ant√īnio Loureiro

Terminadas as suas “miss√Ķes”, de volta √†s origens, dizendo cobras e lagartos da terra que os enriquecera l√≠cita ou ilicitamente, todos saltavam, novamente, na ilha do Marapat√°, e recolhiam as suas consci√™ncias, ou as suas vergonhas, ou ambas, onde as tinham deixado, e iam viver em outras paragens, como honestos senhores. Muitos, por√©m, jamais as recuperaram, perdidas para sempre no emaranhado do igap√≥ ou carregadas pelas enchentes, Amazonas abaixo. Os gemidos dessas consci√™ncias perdidas talvez sejam os escutados na assombrada ilha.

Hoje, passados tantos anos, os que vêm de fora poucos usam o navio como transporte. O avião e o automóvel não passam por Marapatá. A Zona Franca está aí. Onde é que este pessoal todo está escondendo a sua consciência, a sua vergonha, ou ambas? Isto é uma estória para outra oportunidade.

Ilha do Marapat√° / Foto : Marcus Pessoa
Ilha do Marapat√° / Foto : Marcus Pessoa

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