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Ex-musa do crime conta bastidores da prisão no TikTok e como isso mudou sua vida!

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“Topa roubar umas lojas hoje comigo?”, foi o que perguntei para o meu amigo assim que acordei naquela tarde de fevereiro de 2016, ainda de ressaca por causa da noite anterior.

Nós dois usávamos uma arma emprestada e os assaltos já faziam parte da nossa rotina há três meses. Ele só dirigia a moto e ficava me esperando para fugir: era eu quem descia com ela e apontava para as pessoas, pegando o dinheiro e os objetos de valor. Geralmente escolhia como alvo as mulheres, porque sabia que os homens poderiam reagir e meu intuito nunca foi atirar. Eu nunca matei alguém. Sempre tive horror a matar.

Naquele dia, rodamos pela nossa cidade, em Araguaína (TO), e assaltamos entre 10 e 15 pessoas, na rua e no comércio. Eu achei que daria tudo certo, como sempre dava. Não tinha medo algum. Geralmente estimulada pela bebida e pelas drogas, achava que nada de mal poderia me acontecer. Porém, naquela ocasião as pessoas começaram a ligar para a polícia e nós dois fomos presos em flagrante.

Esta foi a primeira vez que eu fui para a cadeia. Antes, a Polícia Federal já tinha tomado meus pertences porque eu participava de um esquema de fraudes no seguro desemprego. Recebia o dinheiro no nome de outras pessoas e ganhava muito com isso. Quando eles entraram na minha casa, levaram tudo que eu tinha e aquilo me deixou muito brava. O caso estava sendo investigado pela Justiça, então não fui para a prisão imediatamente, mas fiquei sem o dinheiro. Por causa disso, comecei a roubar.

Passei por sete prisões e fiquei conhecida como musa do crime

Karol / Imagem: Arquivo pessoal

Karol sofreu preconceito quando voltou ao mercado de trabalho

Eu tinha 20 anos, mas já bebia e usava drogas desde os 14. Ninguém entendia porque eu tinha entrado para aquela vida, já que tinha uma condição de vida boa: minha mãe era diretora de uma escola municipal e meu pai dono de uma marcenaria. Não me faltava nada, muito menos boa educação. Só que eu sempre tive uma personalidade muito rebelde e precisei cometer meus próprios erros para aprender o jeito certo de se viver.

Eu mesma ia atrás de descobrir as coisas: fui a primeira entre os meus amigos a experimentar drogas. Aos 15 anos, engravidei pela primeira vez e, depois do nascimento, minha filha foi morar com a família paterna. Continuei usando maconha e cocaína e me envolvi cada vez mais com pessoas e situações erradas.

O fato de eu ser uma mulher jovem, bonita e cometer assaltos chocou a minha cidade, que tem cerca de 200 mil habitantes. Cheguei a ser manchete de um programa policial e fiquei conhecida como musa do crime.

Graças a um programa do governo, que colocava em prática a justiça restaurativa, eu passei somente um mês na prisão. Logo em seguida, recebi recomendações de como deveria me comportar, assinei termos me comprometendo a agir de forma honesta e fui cumprir prisão domiciliar. Só que assim que me vi fora da cadeia, não fiz nada do que prometi. Pelo contrário, fiquei ainda pior. Voltei a praticar os assaltos e a usar mais drogas.

Por causa disso, depois de três meses, tive a prisão domiciliar revogada para prisão preventiva. Desta vez, não poderia sair até o julgamento. E quando a minha sentença saiu, fui condenada por assalto à mão armada e estelionato: no total, a condenação foi de 9 anos e 9 meses. Quando me dei conta de que não deixaria a prisão por um bom tempo, fiquei extremamente revoltada. Por onde passava, arrumava confusões. Dava um jeito de colocar celulares e drogas para dentro das celas e por isso fui transferida seis vezes.

Quando percebi que aquela vida só me trazia problemas, me arrependi

Karol / Imagem: Arquivo pessoal

 

Sempre fui muito criativa, então passava meus dias trabalhando com artesanato. Cada 30 dias de trabalho diminuía três dias da minha pena. Porém, por causa do meu comportamento ruim, eu sempre acabava perdendo o direito a esse benefício.

Além disso, me lembro de ligar para a minha mãe chorando com um dos celulares ilegais que tinha conseguido e implorar para que ela desse um jeito de me tirar dali. Em uma dessas ocasiões, ela me deu uma resposta da qual eu nunca vou esquecer: me disse que, pela primeira vez na vida, conseguia dormir bem, porque sabia que eu estava em segurança.

Aos poucos, percebi que a minha revolta só me trazia prejuízo. E o passar do tempo me transformou em outra pessoa. Sem as drogas, não sabia como tinha sido capaz de praticar aqueles atos. Eu pensava neles e pareciam cada vez mais distantes da minha realidade. Quando essa ficha caiu, nunca mais quis saber de beber e muito menos de me drogar. Aceitei que teria que cumprir a minha pena e me arrependi de tudo.

Como nunca pratiquei crimes hediondos, como um assassinato, por exemplo, fiquei em regime fechado por quase dois anos. Em seguida, recebi uma tornozeleira eletrônica, que eu customizei com strass, e pude ir para casa. Foi então que percebi o quanto o mundo tinha mudado: ninguém mais do meu ciclo de convivência se importava comigo. Sem amigos e nem namorado, contei só com a ajuda da minha família. Penso que, se não estivesse tão decidida, poderia ter voltado para minha vida anterior. Mas sabia que, se isso acontecesse, provavelmente acabaria morta.

Nem meus parentes acreditaram no quanto eu estava diferente. Por medo de descumprir as ordens, eu mal ia até a porta de casa. Então minha mãe entrou com um pedido na Justiça para que a tornozeleira fosse retirada e eu pudesse voltar a trabalhar como professora de taekwondo, uma luta que aprendi ainda na adolescência. Percebendo o quanto meu comportamento estava diferente, o juiz aceitou o pedido.

Depois de ser solta, eu entrava nas lojas e as pessoas escondiam as coisas

Voltar para o mercado de trabalho, no entanto, foi impossível. Tentei me candidatar à vendedora, mas eu já tinha me tornado uma personalidade famosa na cidade e, quando eu entrava nos estabelecimentos, as pessoas escondiam as coisas de valor de mim. Elas agiam com medo e aquilo me deixava muito frustrada. Devido ao meu histórico de estelionato, a contratação por uma empresa também era praticamente impossível, já que ninguém confiava em mim.

Karol tentava vender as roupas online, mas recebia comentários de ódio como resposta

Sem alternativas, fiz um curso online de marketing digital e comecei a ganhar um dinheirinho indicando pessoas para realizarem o curso também. Nesse período, conheci meu atual marido, que também tinha uma passagem pela prisão, mas que, como eu, decidiu mudar de vida. Juntos, nós tentávamos alugar um lugar para morar, mas era questão de semanas até o inquilino pedir a chave de volta: quando se dava conta do meu passado, logo voltava atrás. Então passamos a nos planejar financeiramente para construirmos nosso próprio canto.

Deu certo: participamos do consórcio de uma moto e fomos sorteados. Vendemos a moto e, com o dinheiro e mais um tanto que juntamos, demos entrada na nossa casa. Eu via o quanto isso causava indignação nas pessoas, porque elas pensavam: “Como ela, que é bandida, consegue isso e eu não?”. Mas tudo foi conquistado com o nosso esforço e de forma limpa. Depois de nos mudarmos, tive a minha segunda filha.

Karol, a filha e o marido conquistaram a casa própria/ Imagem: Arquivo pessoal

Minha loja só começou a dar certo quando passei a falar da vida na prisão no TikTok

Desisti da história do curso e decidi montar uma loja online de roupas. Mas no começo a ideia foi um fiasco. Existia um grupo de Facebook voltado para venda de roupas na minha cidade e, sempre que eu postava uma peça lá, recebia comentários negativos. Muitos questionavam quem seria o maluco de me passar o endereço da casa onde morava. Aquilo me deixava muito triste, porque eu só queria trabalhar, como qualquer outra pessoa.

Então decidi criar um perfil no Instagram e não divulgar para ninguém da cidade, só para pessoas de fora. Sem o preconceito contra a minha trajetória, a lojinha foi crescendo. Mas a grande virada veio quando eu decidi criar uma conta no TikTok e falar sobre a minha história e sobre como era a vida na prisão. Tive muito medo de ser julgada, mas postei mesmo assim.

Desde então, os vídeos se tornaram virais. Um deles chegou a cinco milhões de visualizações. Quando percebi que eles eram um sucesso, mal acreditei. Logo fui percebendo as principais curiosidades das pessoas com relação à vida de alguém na cadeia e fazendo vídeos sobre isso. Muita gente acha, por exemplo, que passávamos fome ou éramos maltratadas, mas no meu caso, nada disso aconteceu.

Depois dos vídeos, recebi muitas mensagens de apoio. Percebi que nem todos são preconceituosos e muitos estão dispostos a ajudar. Minhas vendas aumentaram demais e hoje considero o meu negócio um sucesso. Sou CEO da minha própria empresa e vou continuar fazendo de tudo para impulsionar meu crescimento de vida.

Karol tentava vender roupa online / Imagem: Arquivo pessoal

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