O ataque à Barreirinha pelos Bandoleiros do Baixo Amazonas - No Amazonas é Assim
Se Conecte Conosco
Manaus, AM, quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Memórias do Amazonas

O ataque à Barreirinha pelos Bandoleiros do Baixo Amazonas

REBELIÃO DO BAIXO AMAZONAS – NO FINAL DE 1920 BANDO INSURGENTE INVADE E ATACA A VILA AMAZONENSE DE BARREIRINHA.

Publicado há

em

O ataque à Barreirinha pelos Bandoleiros do Baixo Amazonas

Hoje Barreirinha é uma cidade do Amazonas,cujo município tem uma população de 32 mil habitantes.Situada na margem do Paraná do Ramos,o local é também a terra natal do ilustre poeta Thiago de Melo

Porém no início do século XX Barreirinha sofreu um impiedoso ataque realizado por um bando insurgente que colocou em polvorosa os municípios daquela região,sendo que foi preciso entrar em ação forças militares do Estado e do governo federal para pacificar a zona conflagrada.

Era o ano de 1920 e o Estado do Amazonas passava por uma séria crise econômica devido a queda do preço de seu principal produto de exportação,a borracha.Devido a isso a economia local entrou em decadência,afetando toda a população amazonense.

Na região do Baixo Amazonas,na área compreendida entre os municípios de Parintins,Barreirinha e Maués,a crise ali tomou grandes proporções com a carência de gêneros alimentícios(gerando a fome)e a miséria que se alastrou mais ainda pelo local,atingindo todos os moradores.

Foi então que em dezembro daquele ano se tem as primeiras notícias do surgimento de um grupo armado na região do rio Andirá e Paraná do Ramos que,impulsionado pela crescente situação de penúria econômica que afetava os mais pobres daquela área,aos poucos foi crescendo em importância e número de membros,passando o bando a atacar vilas,seringais e comunidades para saquear as casas comerciais destes locais.

Esse grupo armado causou verdadeiro pânico entre a população da área afetada(pois chegaram a dominar várias partes da zona rural dos três municípios)e autoridades constituídas do Estado,chegando até ao conhecimento das autoridades federais no Rio de Janeiro e da imprensa do Sul e Sudeste do país.

A Rebelião do Baixo Amazonas (1920/1921) durou quase um mês,culminando com a derrota do bando rebelde(que chegou a contar com mais de 800 seguidores)pelas tropas do governo e a prisão de vários deles.

Advertisement

O ATAQUE SURPRESA A BARREIRINHA

Chegava o final do mês de dezembro de 1920.Já bem organizados,os líderes rebeldes José Vaqueiro,Manoel Araújo e Barrinha,junto com o seringalista Inácio Pessoa Neto e um outro indivíduo conhecido como “Chico Galinha”, traçavam as estratégias para a primeira grande ação de seu recém-organizado bando : a invasão da Vila de Barreirinha.

Inácio Pessoa,abastado seringalista e comerciante daquela região,aproveitou o momento de insatisfação dos rebeldes e se aliou a eles com a finalidade de arruinar os outros comerciantes,a maioria de origem judaica( que eram seus concorrentes),e ficar com parte das mercadorias saqueadas deles.Sendo assim,Inácio forneceu armas para os insurgentes e ofereceu sua propriedade como ponto de encontro dos amotinados e para armazenar as mercadorias roubadas.

Naquele ano o município de Barreirinha tinha uma população de 5.300 habitantes,produzia cacau,farinha e borracha e tinha como prefeito o senhor João Soares Dutra.

Era o dia 30 de dezembro de 1920,pela manhã,na pacata Vila de Barreirinha.Tudo corria normal quando,inesperadamente,a tranquilidade do local foi quebrada pela chegada de uma coluna com 200 homens que,saindo do mato,invadiram a Vila.Os moradores,pegos de surpresa e amedrontados,viam a Vila ser inteiramente dominada pelos inusitados visitantes.Não sabiam o que eles desejavam,mas logo perceberam que boa coisa não seria pois todos estavam armados com espingardas,terçados,cacetes e chicotes.

Inicialmente os chamados “Bandoleiros do Baixo Amazonas”(como ficariam conhecidos pela imprensa da época)não atacaram ninguém e se dirigiram para a principal praça da Vila onde ali seus principais líderes e oradores começaram a falar,para todos ouvirem,onde protestavam contra sua situação de miséria e a carestia de vida que assolava aquele lugar além do descaso do governo e da exploração que diziam sofrer dos comerciantes de Parintins,Barreirinha e Maués,a maioria composta de judeus que dominavam o comércio daquela região(devido a isso,os negociantes hebraicos se tornaram o principal alvo de ódio dos amotinados).

Após lançado o protesto e o fim das falas,foi dada a ordem e os amotinados (já no controle da Vila) começaram os saques,tiros e violência,se espalhando eles por Barreirinha em busca dos estabelecimentos comerciais e destruindo tudo o que encontravam pelo caminho.

A pequena guarnição policial e alguns moradores tentaram inutilizar os invasores,procurando rechaçá-los,mas foram infrutíferas todas as tentativas pois os revoltosos estavam bem armados e eram maioria,resultando desse confronto e resistência dos moradores em mortes,pois os invasores já se reconheciam como senhores do lugar e ficaram ainda mais furiosos devido a audaciosa reação de combate dos habitantes de Barreirinha.

Advertisement

UM RENOMADO DENTISTA DA VILA ESCAPA DA MORTE

Numa das primeiras incursões dos rebelados durante o ataque,o cirurgião dentista Maximiliano Trindade Filho escapou de ser assassinado.Estava ele conversando com dois conhecidos,numa casa comercial,quando subitamente ali apareceu um pequeno grupo dos invasores,armados de terçados e chicotes.

Vendo os rebeldes na porta do comércio tentando invadir o local(porém não haviam ainda conseguido devido a ação da esposa do proprietário que corajosamente se postou à frente deles)o dentista Maximiliano pegou um rifle e deu um tiro para o alto com o fim de espantar os insurgentes que,vendo a detonação da bala,fugiram e desapareceram na mata próxima.

Pouco depois Maximiliano foi avisado por um dos moradores de que um outro grupo maior dos invasores atacantes,que foram informados da audácia do dentista pelos fugitivos,estava a caminho para assaltar a casa comecial e tirar sua vida.

Avisado a tempo,o referido dentista fugiu com as demais pessoas que se encontravam no estabelecimento,sendo que logo depois que o comércio foi abandonado chegaram ali os rebeldes que depredaram e saquearam todo o local.O proprietário do comércio estava no momento ausente,o que o salvou da morte certa.

RESULTADO FINAL DA INVASÃO

Em outros pontos da Vila de Barreirinha os rebeldes espancavam e atiravam nas pessoas, invadindo e depredando outras casas comerciais,estando o terror estabelecido em Barreirinha cuja população,em desespero,corria para a mata ou se trancavam em suas casas,visando escapar da fúria dos revoltosos.

As casas comerciais dos judeus David Benzaquen e Mário Assayag foram também invadidas e saqueadas,sendo levadas todas as mercadorias e tocado fogo nos livros que continham as anotações dos produtos,saldos e cobranças.

Na verdade todos os comércios da Vila tiveram o mesmo fim perante os invasores,só restando a seus proprietários fugirem pela mata para salvar suas vidas.

Advertisement

Entre as autoridades presentes na Vila de Barreirinha no momento da invasão estavam o prefeito João Soares Dutra e o Delegado de polícia Abílio da Costa e Silva,que nada puderam fazer para evitar que os rebeldes levassem a efeito o seu intento.

O saldo final da incursão violenta dos intitulados Bandoleiros do Baixo Amazonas,à indefesa Vila,foi de 9 pessoas mortas e vários feridos à bala,terçadadas ou espancamento.Todos os comércios estavam destruídos,casas invadidas e pertences ardendo em fogo.

Do lado dos agressores tiveram eles dois membros feridos na troca de tiros com os policiais(que apesar de estarem em minoria e com pouca munição não fugiram de seus postos e os enfrentaram).Outro conhecido morador do local a ficar gravemente ferido foi o jovem David Assayag, filho de um importante negociante local,que acabava de regressar de Manaus onde havia prestado o serviço militar no exército,no quartel do 27⁰ Batalhão de Caçadores.

Após o ataque à Vila de Barreirinha as mercadorias pilhadas foram conduzidas de canoas pelos rebeldes e depositadas em barracas nos lugares “Boca do Sapateiro” e “Lago Grande”,onde ali os membros do bando fizeram a distribuição dos produtos entre eles e os moradores daqueles locais.

Quanto aos habitantes de Barreirinha, traumatizados e com medo,começaram a abandonar a Vila após a ação violenta que sofreram.

OUTROS PRIMEIROS ATAQUES PRÓXIMOS À BARREIRINHA.

Ainda no dia 30 de dezembro (mesmo dia do ataque à Barreirinha)o grupo agressor invadiu um outro local,às 14 horas,que foi a casa comercial “Nova União”,localizada no Paraná do Ramos.O proprietário Salomão Mendes foi pego no momento em que ele fugia por uma janela de seu comércio,sendo ele espancado pelos revoltosos que lhe deram muitas chicotadas.Salomão foi salvo pelo comerciante Francisco Nepomuceno que o levou a Parintins onde ficou em tratamento médico.

No mesmo dia 30 os rebeldes também atacavam a “Casa São João”,no Paraná do Ramos,pertencente à firma “Saragat & Mendes”,que foi destruída e pilhada.Porém os revoltosos pouparam somente as jóias e roupas da esposa do proprietário que pediu,por misericórdia,que não levassem,sendo ela atendida pelo líder do bando.

Advertisement

No dia seguinte,31 de dezembro de 1920,o bando armado invadia um outro estabelecimento no lugar chamado “Boca do Paulo”,que era uma casa comercial de Fortunato Assayag.Os revoltosos atacaram o local às 6 horas da manhã onde travou-se um intenso tiroteio entre eles e os empregados de Fortunato,que acabaram se rendendo.Logo depois os rebeldes tocaram fogo em todos os papéis da firma e conduziram as mercadorias para a beira,no porto,onde banquetearam fazendo grande algazarra e comemoração.

Após esses primeiros ataques o número de membros do famigerado bando sublevado cresceu para mais de 300.

Todos eles tinham uma marca de identificação: usavam um chapéu de palha que continha uma cruz azul pregada do lado.

Essa principal coluna de ataque do grupo,que operava no rio Andirá e Paraná do Ramos,era comandada por José Vaqueiro,um piauiense que antes de entrar para o bando residia com a família no Andirá-Mirim.

Depois foram eles baixando pelo Paraná do Ramos fazendo mais incursões violentas,além disso haviam outros sub-grupos rebeldes em ação nas zonas rurais de Maués e Parintins.

A CHEGADA DE UMA AUTORIDADE DE BARREIRINHA E AS PROVIDÊNCIAS TOMADAS

No dia 1⁰ de janeiro de 1921,dois dias após o ato de invasão,chegava à Barreirinha o Dr.Pedro da Silva Mendes,juiz Municipal do município que estava em Manaus.Em sua viagem de volta,ao desembarcar em Parintins,o juiz soube do acontecimento macabro em sua Vila e rapidamente embarcou em uma lancha rumo à Barreirinha.

Chegando na Vila o Dr.Pedro viu os estragos que os insurgentes fizeram e foi logo agindo como autoridade.Ele logo mandou fechar e lacrar as casas comerciais saqueadas e tomou outras providências assegurando aos moradores(que estavam aterrorizados)paz,segurança e tranquilidade pois iria pedir auxílio ao governo do Estado para que tal ato não se repetisse.

Advertisement

RUMORES DE UM NOVO ATAQUE À BARREIRINHA E A FUGA DOS COMERCIANTES

Dias depois rumores diziam que os revoltosos planejavam um segundo ataque à Vila de Barreirinha.Assustadas com essas notícias várias famílias embarcaram em canoas e batelões conduzindo mercadorias,com destino à outras localidades do Baixo Amazonas.E no dia 9 de janeiro de 1921,ao passarem os refugiados de Barreirinha pela Vila de Urucurituba,os moradores do local souberam pelos fugitivos que o bando armado também pretendia invadir Urucurituba.A informação deixou a população local em pânico e os comerciantes italianos do lugar(que ali dominavam o comércio)enviaram um emissário à Parintins com o fim de telegrafar ao cônsul da Itália em Manaus,pedindo garantias para as suas propriedades.

Autoridades de Barreirinha,visando a defesa da Vila de um novo ataque,organizaram uma guarda armada de moradores locais.Mas o que não se sabia é que alguns desses guardas eram simpáticos à causa dos rebeldes e,secretamente,mandavam munições aos integrantes do bando.A guarda foi então dissolvida assim que isso foi descoberto.

CONCLUSÃO

Após vários outros ataques dos sublevados e a ameaça deles de invadir Parintins,o governo do Amazonas(através do governador César do Rêgo Monteiro)mandou uma força policial no navio de guerra “Cidade de Manáos”,que derrotou a principal coluna de ataque do grupo na boca do lago Meruxinga em 13 de janeiro de 1921.Outra força legalista foi mandada pelo governo federal,composta por soldados do Exército,do 27⁰Batalhão de Caçadores,que saíram de Manaus rumo ao local do conflito para guarnecer Parintins.

Após a derrota dos rebelados em Meruxinga e em outros pontos e a prisão de 200 deles,os demais que conseguiram escapar(tendo seus bandos destroçados ou abandonando a luta)foram vistos em frente à Barreirinha,quase nus,fugindo a nado e atravessando aningais e lagos,para não serem apanhados pelos policiais.Já outros atravessaram os limites do Amazonas e fugiram para a área do rio Tapajós,no Pará.

Tinha fim o famoso grupo dos chamados “Bandoleiros do Baixo Amazonas” que,como afirmaram as fontes da época,tanto terror trouxe aos municípios de Parintins,Barreirinha e Maués sendo que foi o maior bando amotinado e em ação que existiu no Amazonas durante o século XX.

Na cadeia de Barreirinha ficaram presos 40 membros do grupo rebelde,inclusive os principais líderes.

Como já foi mencionado e se pôde perceber,o verdadeiro motivo do estopim da rebelião foi a grande instabilidade social e econômica que se abateu naquela zona com a perda do monopólio da exportação da borracha,gerando falta de perspectivas para a população e logo descambando para a violência.

Advertisement

Nas imagens se vê na ilustração da esquerda um membro do grupo revoltoso do Baixo Amazonas com seu chapéu de palha com a cruz azul do lado.A direita,acima,se tem uma foto atual da igreja da cidade de Barreirinha. E embaixo,à direita,uma notícia do jornal “Correio Paulistano”,de São Paulo, do dia 20 de janeiro de 1921,anunciando a invasão de Barreirinha pelos insurgentes.

O ataque à Barreirinha pelos Bandoleiros do Baixo Amazonas

O ataque à Barreirinha pelos Bandoleiros do Baixo Amazonas

FONTES:

  • Jornal do Commercio(AM)
  • Gazeta da Tarde(AM)
  • Folha do Acre(AC)
  • Folha do Norte(PA)
  • O Estado do Pará(PA)
  • Diário de Pernambuco(PE)
  • Pacotilha(MA)
  • O Jornal(MA)
  • Correio da Manhã (RJ)
  • A Noite(RJ)
  • A Rua(RJ)
  • Jornal do Brasil(RJ)
  • Correio Paulistano(SP)
  • O Combate(SP)
  • Livro “Sinopse histórica do município de Barreirinha”,de Aurélio Carneiro.
Deixe seu comentário aqui embaixo

Youtube – No Amazonas é Assim

Canal Youtube No Amazonas é Assim

Canal Youtube No Amazonas é Assim

Lendas Amazônicas, Urbanas e Folclóricas!

Lendas Amazônicas, Lendas Urbanas e Lendas Folclóricas

Lendas Amazônicas, Lendas Urbanas e Lendas Folclóricas

Prefeitura de Manaus

Últimas notícias da Prefeitura de Manaus

Governo do Amazonas

Últimas notícias do Governo do AM

Assembleia Legislativa do AM

Últimas Notícias do TCE-AM

Tribunal de Contas do Amazonas

Últimas Notícias do TCE-AM

Entre em nosso Grupo no Whatsapp

Participe do nosso grupo no Whatsapp

Últimas Atualizações