Polícia
Caso Benício: Vídeo apresentado por médica teria sido manipulado para simular falha no hospital
Nesta segunda-feira (23/03) a Polícia Civil do Amazonas revelou indícios de adulteração em um vídeo apresentado pela defesa da médica Juliana Brasil Santos, principal investigada pela morte do menino Benício Xavier de Freitas, de 6 anos, ocorrida em novembro de 2025 no Hospital Santa Júlia, em Manaus.
De acordo com o delegado Marcelo Martins, titular do 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP), que conduz o inquérito, a perícia técnica realizada no material apontou manipulação no vídeo. O objetivo seria simular uma falha no sistema eletrônico de prescrição médica do hospital, transferindo a responsabilidade pela aplicação incorreta de adrenalina intravenosa para um suposto erro automático da plataforma.
“O vídeo mostraria que a troca da via de administração da adrenalina teria ocorrido por erro do sistema. Quando, na verdade, a perícia comprovou que não houve nenhum erro”, explicou o delegado.
A análise pericial anterior, já divulgada em janeiro de 2026, havia descartado qualquer defeito técnico no sistema Tasy EMR utilizado pela unidade hospitalar, confirmando que a escolha da via de administração (intravenosa, em vez de nebulização) é feita manualmente pelo médico prescritor.
O vídeo adulterado foi localizado durante busca e apreensão na residência da médica Juliana Brasil, quando seu celular foi recolhido e submetido a exame pericial. Essa descoberta configura, segundo a polícia, o crime de fraude processual (art. 347 do Código Penal), além das investigações já em curso por homicídio (possivelmente doloso por dolo eventual) e outros delitos relacionados ao uso irregular de carimbo de pediatria sem especialidade reconhecida.
Ainda de acordo com o delegado Marcelo, haviam trocas de mensagens no celular da médica Juliana Brasil, onde a irmã dela, Giovana Brasil, teria combinado os detalhes da alteração do vídeo com a uma segunda médica, identificada apenas como Luíza.
A irmã da médica, a estudante de medicina Geovana Brasil, também é investigada por suposta participação na adulteração. Ela foi ouvida nesta segunda-feira (23/3) e optou por permanecer em silêncio durante o depoimento. A defesa de Geovana negou que ela soubesse de qualquer informação sobre o caso, principalmente porque ela não estava no hospital no momento dos fatos.
Outra profissional de saúde, identificada apenas como “Luisa” (médica), foi interrogada pela polícia. De acordo com informações do delegado, ela negou envolvimento na manipulação e classificou sua participação como mera “conjectura”.
Os depoimentos foram encerrados nesta segunda-feira (23), exatamente quatro meses após a morte de Benício. A última pessoa ouvida foi a irmã da médica.
O inquérito policial, acompanhado pelo Ministério Público do Amazonas (MPAM), aguarda a finalização de laudos complementares, incluindo o exame necroscópico completo de Benício, para conclusão.
Relembre o Caso Benício
Benício Xavier foi levado ao Hospital Santa Júlia em 22 de novembro de 2025 com tosse seca e suspeita de laringite. A médica Juliana Brasil prescreveu lavagem nasal, soro, xarope e três doses de adrenalina intravenosa (3 ml a cada 30 minutos). A família questionou a via de administração, pois a medicação costuma ser usada por nebulização em casos semelhantes, e a técnica de enfermagem também demonstrou estranhamento, mas seguiu a prescrição.
Após a primeira dose, a criança apresentou piora grave, com múltiplas paradas cardíacas, queda de saturação para cerca de 75%, necessidade de intubação e transferência para UTI. Benício não resistiu e faleceu na madrugada de 23 de novembro, às 2h55.
O pai, Bruno Freitas, relatou à imprensa: “Meu filho nunca tinha tomado adrenalina pela veia, só por nebulização. Nós perguntamos, e a técnica disse que também nunca tinha aplicado por via intravenosa. Falou que estava na prescrição e que ela ia fazer”. A família clama por justiça e medidas para evitar novas tragédias: “Queremos que isso nunca mais aconteça. Não desejamos essa dor para ninguém”.
O Hospital Santa Júlia afastou a médica e uma técnica de enfermagem, realizou investigação interna pela Comissão de Óbito e Segurança do Paciente e afirmou colaborar com as autoridades.
A defesa de Juliana Brasil até o momento não se manifestou sobre as novas acusações de adulteração do vídeo.
Confira o vídeo que foi comprado pela médica, de acordo com a polícia:










